sexta-feira, 19 de janeiro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Desordem e prisão

Vista geral de Cachoeira no começo do século XX - Fototeca Museu Municipal

A vida da cidade não era tão pacata assim há 100 anos. Como prova da agitação que por vezes tomava as ruas, uma notícia publicada na edição de 16 de janeiro de 1918 d'O Commercio refere desordem e prisão na calada da noite cachoeirense:

V. M. e E. B., em companhia das horisontaes* A. C. e P. M., resolveram consagrar à farra a noite de sexta-feira, noite tradicionalmente conhecida como escolhida para a apparição de bruxas, almas do outro mundo, boi-tatás e quejandas coisas que o vulgo rodeia de pavoroso mysterio, architectando, sobre ellas, as lendas mais extravagantes.

Na Pensão 15 de Outubro, de C. M., nome sob o qual se disfarça o cabaret localisado no extremo leste da rua Andrade Neves, entregaram-se esses comparsas de orgia a libações excessivas, ultrapassando o limite que o corpo era susceptivel de comportar sem desequilibrio.

Sahindo d'ali, já pela madrugada de sabbado, começaram a manifestar signaes de forte perturbação do entendimento, quebrando violentamente algumas vidraças do cabaret.

Depois, parando á rua 15 de Novembro, quadra entre as ruas General Portinho e Andrade Neves, uma das pandegas, sobre cujo systema nervoso o alcool, com certeza, estava a produzir grande excitação, começou a gritar desesperadamente, como si lhe estivessem a cortar algum membro do corpo com uma faca afiada.

Os gritos lancinantes, que mais pareciam uivos de cão do que vozes humanas, acordaram e puzeram em polvorosa todas as familias daquella quadra pacifica, deshabituada a semelhantes interrupções do seu placido repouso!

Debalde um dos comparsas dizia: Fica quieta! Qual nada! A incommoda creatura continuava a berrar, como quem estava nos derradeiros estertores da agonia.

Tal gritaria attrahiu para as janellas e as portas uma grande parte da vizinhança, e, d'ahi ha pouco. appareceu tambem a policia administrativa, que prendeu correcionalmente os quatro perturbadores do socego nocturno.

Triste fim da alegre noitada de assombro: hospedagem á sombra e pagamento, per capita, de 5$000 réis pela sahida, alem da indemnisação pela quebra das vidraças do cabaret.

- Sabemos que, na mesma noite, esses ou outros desordeiros, cuja culpabilidade cabe á policia averiguar, quebraram vidraças de alguns predios da rua Ramiro Barcellos, quadra entre as ruas 15 de Novembro e 1.º de Março, casas essas pertencentes á exma. sra. d. Maria Isabel da Silva Souto. (O Commercio, 16/1/1918, p. 3).

Bruxas, boitatás, almas do outro mundo... nada mais são do que mistérios que dão tempero e disfarce às coisas mais mundanas.

*horizontais: meretrizes.
Nota: os nomes dos meliantes, apesar de século passado, foram abreviados. 

MR
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Marista Roque: de quartel da Guarda a Ginásio Municipal

O Colégio Marista Roque está a um ano de completar seu 90.º aniversário. No ano anterior, 1928, às vésperas do início efetivo de seu funcionamento, importantes medidas foram tomadas para que Cachoeira ganhasse, a exemplo do que já havia em Santa Maria, um ginásio que oferecesse aos estudantes do município a oportunidade de optarem por um curso comercial ou ginasial que também lhes permitisse prestar exames de preparatórios para cursos superiores.

Colégio Marista Roque - colegiomarista.org.br

A primeira tentativa de estabelecimento de uma escola de orientação marista se deu em 1907, quando Irmão Climaco e Irmão Geraldo estiveram em visita a Cachoeira para escolher um local para abertura de um ginásio. No ano seguinte, foi fundado por eles o Colégio Nossa Senhora da Conceição, na Rua Saldanha Marinho, com funcionamento regular até 1914.

A segunda tentativa, muito bem sucedida, começou com a assinatura de um contrato entre a Associação Champagnat, mantenedora dos maristas, e a Intendência Municipal para cessão do prédio do antigo quartel da Intendência, erguido em 1895 na Rua Saldanha Marinho. O contrato, de 12 cláusulas, assinado em 9 de janeiro de 1928 pelo intendente em exercício João Neves da Fontoura e pelo irmão Weibert, representante do irmão provincial Geraldo, previa, dentre outras coisas, a construção pela Intendência de duas salas para aulas e fazer as reparações necessarias no predio. Enquanto funcionasse, o estabelecimento de ensino seria isento de taxas e impostos municipais e do pagamento do abastecimento de água e esgotos, correndo por conta da Associação as construcções e installações dos serviços que se fizerem. 

Ginásio Municipal Roque Gonzales  - antigo quartel da Guarda Municipal
- Fototeca Museu Municipal

Para garantir a manutenção do ginásio, a Intendência comprometeu-se a dar uma subvenção annual de treis contos de reis, desde a installação do Collegio e durante os primeiros cinco annos, podendo esta subvenção ser prorrogada por mais tempo, no todo ou em parte, se assim o entender a Municipalidade, o que ficou acertado na cláusula terceira.

A cláusula seguinte estabelecia um compromisso duplo: No decurso de dez annos, a Intendencia Municipal obriga-se a vender a Associação Champagnat pelo preço de cem contos de reis (100:000$000) o predio de que trata o presente contracto, o que veio a se concretizar em 1.º de setembro de 1938, mas não como compra e venda, mas em forma de doação da Prefeitura Municipal, representada pelo Prefeito Reynaldo Roesch, à União Sul-Brasileira de Educação e Ensino, representada pelo irmão Afonso, provincial dos maristas.

Reynaldo Roesch - Galeria de Prefeitos

A cláusula sétima do contrato determinava à Associação Champagnat a obrigação de instituir e manter, com o número necessario de professores, um curso commercial identico ao que mantem o Gymnasio Municial Santa Maria e um curso Gymnasial até o 3.º anno inclusive, de modo a que os alumnos possam prestar exames finaes de preparatorios, para cursos superiores, de accordo com a legislação correspondente, como filial do alludido Gymnasio de S. Maria. Esta cláusula foi cumprida regiamente até 1994, quando foi extinto o então curso Técnico em Contabilidade. 

As demais cláusulas previam a manutenção e conservação do prédio pela Associação, incluindo as instalações sanitárias exigidas, o estabelecimento de um internato, desde que fosse ministrado o ensino gratuitamente a dez alumnos indicados pelo Intendente Municipal, dos quaes dois internos, quando houver internato e definiam a obrigação dela installar o Collegio em março de 1929, devendo funccionar todos os cursos desde que haja matricula correspondente de 20 alumnos, pelo menos. O que foi igualmente cumprido, entrando o Gymnasio  Municipal Roque Gonzales em funcionamento a partir de 21 de janeiro de 1929. A escola mantém, até os dias de hoje, bolsas de estudos e projetos gratuitos para crianças e jovens da comunidade.

Pátio interno do colégio - aproximadamente 1929
- Acervo Colégio Marista Roque

Para as obras de adaptação do antigo prédio da Guarda Municipal para nele funcionar o ginásio a Intendência assinou, em 27 de setembro de 1928, contrato com a firma Scarano & Filhos para o serviço de construcção de um augmento no predio á rua Saldanha Marinho, destinado ao Gymnasio Municipal.

A assinatura foi firmada por José Carlos Barbosa, intendente municipal, e Miguel Scarano, sócio principal de Scarano & Filhos, vencedores da concorrência pública. O prazo estipulado para a conclusão da obra era o de 120 (cento e vinte) dias decorridos da assignatura do presente contracto, sob pena de multa de 20% sobre o seu valor.

O Colégio Marista Roque é responsável pela formação de muitas gerações de cachoeirenses e nome de referência na história da educação em Cachoeira do Sul. Mas chegou a esta condição graças às reiteradas tentativas dos irmãos maristas e à boa acolhida dos gestores municipais. Seguiram a máxima de uma antiga casa comercial - a Casa Augusto Wilhelm - que dizia: Insista, periga ter!

Fonte: IM/G/AB/C-004, pp. 34v. a 35v. e 50 a 51v.

MR
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

D. Remídio Bohn, um estudioso de genealogia

Cachoeira do Sul está a lamentar o falecimento do Bispo Diocesano D. Remídio Bohn, ocorrido no Dia de Reis, 6 de janeiro de 2018. Em razão de sua interação com a comunidade e sua liderança junto aos católicos, a comunidade pranteou seu desaparecimento, comparecendo em grande número às cerimônias fúnebres ocorridas na Catedral Nossa Senhora da Conceição no dia 7.

D. Remídio Bohn - pt.wikipedia.org

Dom Remídio era um apreciador e estudioso de genealogia. Em mais de uma ocasião demonstrou seu interesse participando de atividades promovidas pelo Arquivo Histórico ou permitindo que a equipe utilizasse o excepcional arquivo documental da Diocese, onde estão resguardadas informações que remontam aos primórdios da história de Cachoeira do Sul, com registros a partir de 1779.

Em 2012, ano da chegada de D. Remídio à cidade, durante a Semana de Cachoeira do Sul, o Arquivo Histórico promoveu a apresentação de estudos sobre a ocupação inicial do município por pessoas oriundas dos Açores e sua descendência. D. Remídio se fez presente ao evento e demonstrou, naquela ocasião, o quanto valorizava os estudos nesta área, informando ter feito a árvore genealógica de sua família e demonstrando grande desenvoltura com programas digitais voltados à alimentação de informações do gênero.

D. Remídio presente à atividade no Arquivo Histórico (foto inferior)


O falecimento de D. Remídio José Bohn, pela comoção que causou, levou o Prefeito Municipal, Dr. Sergio Ghignatti, a decretar luto oficial no município por três dias (Decreto n.º 001/2018, de 7/1/2018).

R.I.P. D. Remídio José Bohn!

MR
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Porcos e águas servidas

Atacar questões de asseio público é obrigação dos gestores em todos os tempos, porque mesmo no passado já havia o entendimento de que certos maus hábitos são responsáveis imediatos por problemas de saúde da população. Uma das primeiras manifestações de preocupação com estas questões em Cachoeira se deu em 1827, quando o cirurgião Gaspar Francisco Gonçalves alertou sobre os sepultamentos dentro da Igreja Matriz e o mau recolhimento das águas nas sangas e córregos da vila.

Na edição de 1.º de janeiro de 1918, o jornal O Commercio registra uma prática salutar empreendida pela administração municipal que era a de promover vistorias domiciliares em busca de irregularidades que atentassem contra o asseio e, logicamente, em casos de descumprimento das determinações constantes do código de posturas, aplicar multas. 

Diz a matéria o seguinte:

Visitas domiciliares. - O [rasgado] Alexandre Lemos de Farias, fiscal da 2.ª zona urbana, procedeu na semana finda, a visitas domiciliares nas ruas Saldanha Marinho e Julio de Castilhos.

Rua Saldanha Marinho - Fototeca Museu Municipal
Rua Júlio de Castilhos com tropa de animais - Coleção Claiton Nazar


Em varios pateos e quintaes aquelle funccionario achou irregularidades quanto ao asseio, determinando a retirada de alguns suinos para fóra da cidade, sob pena de multa aos que não attendessem.

Tambem encontrou sargetas com depositos de aguas servidas em alguns hoteis, determinando e ordenando fosse a remoção dessa agua servida feita pela pipa da municipalidade.

Eram tempos de uma cidade que ainda continha em seu recinto chácaras e grandes quintais, onde os proprietários se entregavam à criação de animais para a sua subsistência. Também os hotéis e pensões, então em número significativo, não dispunham da modernidade do serviço de água e esgotos, cujo passo inicial seria dado somente na década seguinte, ou seja, em 1921, com a instalação da primeira hidráulica, e em 1923, com o assentamento dos primeiros condutos para esgoto. E a zona examinada, compreendida pelas ruas Saldanha Marinho e Júlio de Castilhos, só iria ter estes benefícios a partir de 1925, com a segunda hidráulica. As águas servidas, ou seja, usadas em banhos e limpezas de toda ordem, não deveriam correr livremente em valos, mas serem colhidas nas pipas da Intendência, cujo recolhimento era feito pela carroça do asseio público. 

Hoje, cem anos depois, muito ainda há de desafios a serem vencidos na zona urbana. Ainda que o tempo tenha passado e trazido com ele avanços inimagináveis para aqueles que viviam os dilemas e as dificuldades do início do século XX, lutamos hoje com depósitos de água que proliferam mosquitos disseminadores de doenças, com esgotos correndo a céu aberto, com lixo jogado pelas ruas, advinda da deseducação de muitos! Como é possível perceber, asseio público é assunto de todas as épocas e a formação de hábitos passa também pela punição.

MR
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Semelhança ou coincidência?

Apesar da passagem do tempo e das modificações por ele promovidas, alguns aspectos da vida na cidade são atemporais, ou seja, serão sempre considerados pelo grau de interferência que produzem na vida das pessoas.

O jornal O Commercio, em sua primeira edição do ano de 1918, traz uma notícia dos últimos dias do ano de 1917, marcando uma distância temporal de 100 anos, em que coincidentemente a preocupação é a mesma que marca os últimos dias de 2017 e quiçá os primeiros de 2018:

Chuva. - Pelas 5 horas da tarde de terça-feira, 25 do passado, annuviou-se o tempo, e após ligeira ventania, cahiram algumas bategas d'agua sobre esta cidade e suas immediações.

Vista geral da cidade entre 1917 e 1918 - Fototeca Museu Municipal

Na cidade, porém, foi tão pequena a queda d'agua que mal deu para apagar o pó das ruas. Entretanto, a cerca de uma legua de distancia, a rumo nordeste da urbs, choveu abundantemente, como por exemplo, nas propriedades ruraes dos nossos amigos coronel David Soares de Barcellos e Adolpho Brendler.

Sede da chácara do Cel. David Soares de Barcellos - Acervo COMPAHC

Sabemos que á margem esquerda do Botucarahy, a pouco mais de uma legua desta cidade, os campos estão verdes. Só nas proximidades da cidade continúa o aspecto desolador da falta de pastagens.

Esperamos que o anno novo, que hoje entra, seja menos desfavoravel e menos usurario na distribuição de chuvas, permittindo a todos acudir efficazmente, na medida de suas forças, ao appello do dr. Wenceslau Braz*, que pediu intensificassemos a cultura dos campos.

- Hontem, pela manhã, começou a chover nesta cidade, e á tarde cahiram algumas bategas d'agua, que refrescaram a elevada temperatura dos ultimos dias, havendo esperança de termos mais algumas quedas d'agua.

Semelhança ou coincidência, 100 anos depois o apelo dos cachoeirenses é o mesmo: que venham as chuvas e amenizem o calor, aplacando a seca que já se anuncia.

*Wenceslau Braz Pereira Gomes: presidente do Brasil de 1914 a 1918.

Com a última postagem de 2017, desejamos a todos os seguidores do blog do Arquivo Histórico um ano de 2018 auspicioso, agradecendo a agradável companhia e o estímulo de sempre. 
Feliz ano novo a todos!

MR
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Então é Natal!

A Equipe do Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul "Carlos Salzano Vieira da Cunha" agradece a todos que prestigiaram as postagens do blog, servindo-se delas para compreender a riqueza documental e as múltiplas possibilidades de entendimento dos contextos históricos.

Aproveita o ensejo para apresentar os melhores votos para as festas que se aproximam, almejando um 2018 de muitas conquistas e de crescente valorização da memória.

Feliz Natal! Feliz 2018!


Observação: a partir do dia 27 de dezembro o Arquivo Histórico estará atendendo em turno único: das 8h às 14h, de segunda a sexta-feira.
terça-feira, 12 de dezembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Os 100 Anos da Revolução Russa

O Arquivo Histórico, juntamente com a Associação Cachoeirense de Amigos da Cultura - AMICUS, está participando da programação da Semana de Cachoeira 2017 com o debate 

OS CEM ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: IMPACTOS E DESDOBRAMENTOS AO LONGO DO SÉCULO XX,

Debatedores Ms. Andréia Duprat, Fernanda Feltes e Dr. Frederico Duarte Bartz

ONDE? Auditório do Museu Municipal - antiga Prefeitura - Rua 15 de Novembro, 364
QUANDO? 15 de dezembro, às 18 horas

PROGRAMA:

Andréia Duprat (Mestre em Artes Visuais pela UFRGS)
– Os Reflexos da Arte Revolucionária no Rio Grande do Sul dos Anos de 1950 – O Caso do Clube de Gravura de Porto Alegre

Fernanda Feltes (Mestranda em História pela UFRGS)
– Os Movimentos Revolucionários na América Latina

Frederico Duarte Bartz (Doutor em História pela UFRGS)
– O Impacto da Revolução Russa no Rio Grande do Sul



Após o debate, será comercializada e autografada a obra 

O HORIZONTE VERMELHO: O IMPACTO DA REVOLUÇÃO RUSSA NO MOVIMENTO OPERÁRIO DO RIO GRANDE DO SUL (1917-1920)
de Frederico Duarte Bartz  
(R$ 25,00).



Participe!