sexta-feira, 14 de julho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Eucaliptos em Cachoeira

A cultura de eucaliptos em Cachoeira teve um grande impulso a partir de 1916 com o empreendedor José Zell, que desde 1912 vinha realizando palestras e publicando artigos no jornal O Commercio sobre as vantagens da silvicultura.

Sua primeira aparição discorrendo sobre o assunto se deu em 28 de fevereiro de 1912, no salão da Intendência Municipal, quando realizou uma conferência sobre silvicultura em geral, focando especificamente no cultivo do eucalipto. O Dr. Balthazar de Bem, ao apresentá-lo à assistência, justificou a dificuldade de expressão de José Zell devido ao pouco tempo em que estava no Brasil, mas ressaltou sua alta qualificação para o que se propunha fazer.

Segundo publicação n'O Commercio, edição de 6 de março de 1912, ao começar a conferência, José Zell falou sobre a importância dos matos e enalteceu o seu papel benefico exercido (...) sobre o clima, reduzindo e desviando a força dos ventos, determinando maior precipitação d'agua, evitando as erosões e garantindo portanto a perennidade dos cursos d'agua; por meio das folhas os mattos retêm as aguas e mantem a fertilidade dos terrenos. (...) Da exploração sem methodo desta riqueza, provieram aos povos, como á Grecia, Sicilia e outras regiões da Italia, serias difficuldades que hoje trata-se de reparar pelo replantio. (...) 
O Sr. Zell, que é um competente no assumpto, ha 15 annos cultiva eucalyptus nas Pedras Brancas, e o fez com tanto cuidado que suas plantações constituem um verdadeiro campo experimental de sylvicultura. (...) 
Como se vê o sr. Zell vai se tornando um benemerito pela natureza dos seus trabalhos, que merecem ser amplamente divulgados, dada a relevancia do assumpto. 
Perorando o conferencista felicitou aos cachoeirenses pela prosperidade de varios ramos da lavoura neste municipio e concitou-os a proseguir a reconstituição da floresta rio-grandense.

José Zell, que dá nome a uma rua de Cachoeira, foi o grande propagador do plantio de eucaliptos no município. Ancorado em sua larga experiência na silvicultura e dos 15 anos empregados no manejo do eucalipto, era tido como alta autoridade no assunto no Rio Grande do Sul. A partir de 1912, pela ampla propaganda, vários proprietários cachoeirenses passaram a cultivar a mirtácea de rápido crescimento e que em pouco tempo fornecia lenha para combustível e madeira para construção.

A comprovar isto está um documento da Intendência Municipal que traz dados estatísticos do cultivo de eucaliptos no município do ano de 1912 até 1917, demonstrando o protagonismo de Zell no negócio:

IM/EA/SI/Relações - Caixa 22
Na relação de investidores no cultivo, apresentada à Intendência por José Zell, aparecem como pioneiros os médicos Balthazar de Bem e Augusto Priebe. O primeiro, conhecido pelo empreendedorismo, plantou inicialmente 5.000 árvores na sua Granja da Penha, mesmo número de mudas plantadas pelo Dr. Augusto Priebe em sua propriedade, no 1.º distrito, lugar em que hoje se assenta a sede campestre do Clube Comercial.

Investidores pioneiros no cultivo do eucalipto
- Imagens historiadecachoeiradosul.blogspot.com.br e brasilverde.com.br
Outros nomes que aparecem na relação, divulgados também no jornal O Commercio, são: Euripides Mostardeiro & Cia., Carlos Schmidt, Adolfo Brendler, Augusto Wilhelm, Diefenbach, Wilhelm & Cia., Luiz Diefenbach, Gustavo Müller, Emilio Schlabitz & Cia., José Sebastião Vieira da Cunha, da Fazenda São José (Tafona) e Octaviano Gomes de Oliveira.

Silvicultores de eucaliptos - Augusto Wilhelm - acervo familiar
Octaviano Gomes de Oliveira - foto de Benjamin Camozato
José Sebastião Vieira da Cunha - acervo Fazenda da Tafona

José Zell fixou-se na cidade, onde encontrou bom campo de negócio. Aqui viveu por muitos anos, estabelecendo um viveiro para criação de mudas de eucalipto no Alto dos Loretos. No ano de 1916 fechou contratos de mais de um milhão de pés de eucaliptos para proprietários rurais de São Gabriel, Bagé e Pelotas, fazendo de Cachoeira um celeiro exportador. As principais espécies cultivadas eram rostrata, robusta, resinífera, citriodora, pilularis e sideropholia. Em 1918 adquiriu um terreno no Bairro Rio Branco, onde construiu um sobrado projetado por Theo Wiedersphan, o mesmo arquiteto responsável pelo projeto do Templo Martim Lutero.

Sobrado projetado por Theo Wiedersphan para José Zell - Bairro Rio Branco
- Imagem: acervo Osvaldo Cabral de Castro

Não há notícia de quando José Zell deixou Cachoeira, mas consta que o sobrado onde morava foi vendido em 1928 para Edwino Schneider e que antes disso havia pertencido ao Dr. Alfredo Papay. Apesar de ter-se retirado da cidade, as mudas de eucaliptos que difundiu acabaram cobrindo muitos hectares cachoeirenses e fazendo com que esta árvore exótica passasse a ser popular entre nós.

José Zell morreu em Porto Alegre no dia 14 de julho de 1953.

MR
sexta-feira, 7 de julho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Um piano em questão

O Teatro Municipal, portentoso prédio que se localizava na esquina da atual Rua Gabriel Leon, fronteiro à Praça Dr. Balthazar de Bem, era no início do século XX a grande casa de espetáculos da cidade. Empresas de projeção de fitas, os bioscopos, trupes teatrais, ilusionistas, músicos e outros artistas, muitos deles vindos de outras cidades, utilizavam-se das instalações do teatro para suas exibições. 

Teatro Municipal  - Fototeca Museu Municipal

Um dos grupos musicais formados em Cachoeira, que era então uma cidade de inúmeros talentos, chamado Sociedade Musical Grupo Carlos Gomes, era um dos que usufruíam das instalações do teatro. Fundado em 20 de outubro de 1903, o Grupo Carlos Gomes compunha-se de 21 integrantes que tocavam instrumentos de corda e metal. No ano seguinte, já contando com 36 figuras, iniciou uma série de concertos sinfônicos no Teatro Municipal, sendo o primeiro em benefício de obras da Igreja Matriz. Em abril daquele ano, o jornal O Commercio noticiava a aquisição de um piano próprio, cuja estreia se deu também no teatro.

Como é difícil, trabalhoso e indevido o transporte constante de um piano, e em razão das repetidas apresentações do grupo no teatro, o instrumento foi deixado lá, em acordo firmado entre o diretor dos músicos, Abelino Vieira, e o intendente da época, Cel. David Soares de Barcellos. Mas, misteriosamente, o piano desapareceu! Ninguém soube, viu ou ouviu o que aconteceu. Indignados com o desaparecimento, os membros do Grupo Carlos Gomes oficiaram ao intendente Dr. Cândido Alves Machado de Freitas, em 26 de maio de 1906:

Em 18 de abril de 1904, esta sociedade comprou, em Porto Alegre, do Snrº Theodoro Hartlieb um piano, para seu uso exclusivamente, afim de abrilhantar seus concertos muzicaes. Este instrumento foi depositado no Theatro Municipal, com o consentimento do Snrº Cornel David Soares de Barcellos, então intendente, e la continuou a permanecer durante a administração do seu sucessor, o Snrº Dr. Viriato Gonçalves Vianna, que assim o permittio e durante o curto tempo da vossa honrada e digna gestão, continuava a permanecer naquelle proprio municipal consagrado á arte, sem que houvesseis deliberado a sua retirada. Acontece, porem, que, hontem, veio ao conhecimento d'esta sociedade que o piano foi de lá retirado, sem sciencia dos signatarios, nem do respectivo director Snrº Abelino Vieira da Silva, e conduzido para o Club Commercial.

Sendo nós os unicos responsaveis por esse piano, e sendo a subtração d'esse instrumento, da forma por que foi praticada, um facto criminoso previsto no Codigo Penal da Republica, a bem do nosso direito e ressalva, vimos respeitosamente solicitar que vos digneis informar nos se o referido piano foi mandado retirar por V. S. e, em caso negativo, quem o subtrahio ou mandou praticar esse acto contra uma propriedade alheia, visto que, estando o theatro sob as vistas e administração de V. S., como intendente municipal, que o sois legalmente, intuitivo é que d'alli não deveria ser levantado sem o vosso conhecimento, a menos que não tivessem procurado ardilosamente illudir-vos.

Esse acto tem revoltado a consciencia das pessoas honestas, do nosso meio social. 

                                                                                   Saude e Fraternidade.

                                                                      (assinaturas) Abelino Vieira da Silva,
                                                                                                      Director
                                                                                                   Oscar Potter,
                                                                                                    Secretario

IM/S/SE/OE - Caixa 3


A correspondência do diretor do Grupo Carlos Gomes chegou às mãos do Dr. Candido A. M. de Freitas que encaminhou questionamento ao subintendente, cuja resposta foi a seguinte:


IM/S/SE/OE - Caixa 3

                                              Illmo. Snr. Dor. Intendente Municipal

Em virtude de vosso despacho exarado na petição, retro cabe-me informar vós que não me consta que estivesse depositado no Theatro Municipal, sob a responsabilidade da Intendencia, o piano em questão. A verdade é que o referido piano, por tolerancia da Intendencia, permanecia no Theatro, sem que, entretanto, tivesse a Administração qualquer responsabilidade 'por deposito', quanto ao dito instrumento. Á 25 do corrente, mediante requisição da directoria do Club Commercial, desta cidade, que se julga, com fundamento, co-proprietario do piano de que se tracta, por ser possuidor de acções que lhe foram transferidas no valor de 600:000 reis, como alega, fiz entrega do piano aos representantes do "Club", não me cabendo, pois, responsabilidade alguma pelo destino que por ventura possa ter tido o piano reclamado na petição retro. 

                                                                   Cachoeira, 28 de Maio de 1906.

                                                   (assinatura)   João Alberto de Sousa
                                                                    O Subintendente da Sede

Afinal, de quem era de fato o piano? O jornal O Commercio, edição do dia 20 de abril de 1904, noticiou o seguinte:

C. Gomes. - Domingo, no Theatro Municipal foi collocado o piano de concerto Römhildt que o club Carlos Gomes acaba de adquirir. O piano acompanha dous documentos de garantia por 5 annos assignados pelo fabricante e seu agente neste Estado sr. Theodoro Hartlieb.
No theatro reuniram-se á noite muitas senhoras, senhoritas e cavalheiros que, a convite do digno director da sociedade Carlos Gomes assistiram á execução de varios trechos musicaes para, segundo declarou o sr. A. Vieira, aquilatarem e manifestarem juizo competente sobre as qualidades ou defeitos do referido piano.
A experimentação foi coroada de feliz exito. Trata-se de um instrumento artisticamente manufacturado, de vozes grandiosas e aveludadas, de effeito surprehendente.
A convite do director do club as gentis senhoritas Othilia Neves e Violeta Godoy executaram, a quatro mãos o mavioso trecho Dichter und Bauer, de Suppe, e a senhora d. Mercedes Neves de Oliveira - o Allegro classico, de Rossina e a symphonia do Guarany.
Os assistentes applaudiram-nas bastante; retirando-se todos convencidos da excellencia do novo piano.
É este o segundo piano-concerto Römhildt adquirido nesta cidade, no curto espaço de nove mezes. 

Piano Römhildt -  pianomovers.de/klavier-roemhildt-weimar-in-nussbaum-6816

Explicado o desaparecimento do piano, que imbróglio houve para que o Clube Comercial se achasse no direito de retirá-lo do teatro sem o prévio aviso ao Grupo Carlos Gomes? Novamente o jornal O Commercio, em sua terceira página da edição de 6 de junho de 1906, traz informações: 

O piano. - Sabemos que vai ser promovido um processo por crime de furto, contra os mandantes, mandatarios e cumplices da subtração do piano pertencente á sociedade musical em liquidação Grupo Carlos gomes, sob cuja responsabilidade achava-se aquelle instrumento collocado no Theatro Municipal, com a permissão de quem era intendente, desde o dia em que aqui chegou o mesmo piano. 
Os srs. Abelino Vieira e Arthur Macedo, aquelle como liquidante e ambos como maiores credores da sociedade, vão dár procuração ao advogado, nosso companheiro Augusto Brandão, para requerer investigações policiaes e intentar as acções que forem de direito.

Como se vê, o caso do piano foi parar na justiça! Uma dor de cabeça para o recém-empossado intendente. Mas uma coisa é certa, passados 111 anos desta história: o piano foi, ainda que em situação mal explicada, salvo de perecer quando em 1908 houve o desabamento de parte da estrutura do Teatro Municipal... "Há males que vêm para o bem", como diz o antigo ditado.

MR
sexta-feira, 30 de junho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Onde está Roldão?

A documentação resguardada pelo Arquivo Histórico guarda um cabedal imenso de informações de toda ordem, oferecendo um universo de possibilidades para conhecimento da vida da cidade em diferentes períodos históricos. Mas engana-se quem pensa que a natureza da documentação seja apenas de caráter administrativo. É certo que esta tipologia é dominante, mas existem muitos outros gêneros, alguns deles constituindo-se em veículos que permitem um mundo de divagações.

Então, não só de assuntos administrativos, contábeis e de ordem legal tratavam os intendentes (administradores municipais ao tempo da Intendência - 1892 a 1930). Caíam sobre a sua mesa todo tipo de solicitação, como a carta de uma saudosa esposa atrás de informações do marido:

Carta da esposa de Roldão - IM/S/SE/CR-Caixa 3
- Acervo documental Arquivo Histórico

Ill.mo S-nr
                    Intendente 30 Setembro 1926
Pesso por favor para o S-r me mandar noticias de meo marido João Roldão que é joque ahi em cachoeira ou tratador de ums cavallos pello o que o meu marido me dice elle está parando distante de cachoeira umas duas leguas que vem a ser numa leitaria que fornece o leite para o café carioca.
O endereso que o meo marido me deo para eu lhe escrever foi Cafe carioca Cachoeira que ia parar em suas mão escrevi duas uma com este em dereso e otra para ser emtregue ao dono do café carioca para fazer o favor de emtregar para João Roldão não tive resposta e fazem dois mezes dia trez que não tenho noticias. Os boato que chegam a meos ovidos aqui não me agradam pesso emcarecidamente me fazer este favor de me mandar noticias de meo marido seje coal for a noticia deus de já lhe agradeso de sua Cria (criada) Obra (obrigada)

                                                  (assina)  Olinda Marcos Roldão

O meo endereso é Rua S.ª Lucy nº 12 
Porto Alegre

A carta informa que João Roldão era jóquei em Cachoeira. De fato as atividades do turfe estavam a pleno naqueles anos 1920. A primeira entidade do gênero, o Jockey Club Cachoeirense, havia sido inaugurado em 1904, no atual Bairro Santo Antônio. Em 22 de outubro de 1922, foi inaugurado o segundo Jockey Club, já em terras onde até hoje se encontram as pistas de corrida, local conhecido como Prado.

Prado do Amorim - Fototeca Museu Municipal

A outra informação trazida por Olinda é que a leitaria onde João Roldão poderia estar "parando" fornecia leite para o Café Carioca, inaugurado em 23 de abril de 1921. Propriedade de Heitor Gomes Martins, o café estava localizado defronte à Avenida das Paineiras (atual Rua Sete de Setembro) em amplo salão de três portas, calçado de mosaico e mobiliado a capricho. Este dado do leite fornecido ao Café Carioca permite o estabelecimento de um elo importante e que dá fundamento à informação da esposa de Roldão: Heitor Gomes Martins, proprietário do Café Carioca, foi também o primeiro presidente do segundo Jockey Club, inaugurado em 1922!

Bar A Carioca - foto de Benjamin Camozato - Grande Álbum de Cachoeira - 1922

Voltemos à carta sobre a mesa de João Neves da Fontoura, o intendente da época. Que resposta ele pôde dar à mulher? O que havia acontecido a João Roldão? Ele teria sido atraído para Cachoeira em razão das atividades turfísticas que aqui se desenvolviam com força na década de 1920? A profissão de jóquei certamente não garantia o seu sustento e assim João Roldão se viu obrigado a tratar de cavalos e se abrigar em uma leitaria, talvez indicado pelo proprietário do café, casualmente o primeiro presidente do segundo Jockey? Que boatos desagradáveis haviam chegado até sua esposa? Estas indagações que vêm com força do passado não trouxeram com elas as respostas. 

E hoje, habitantes do futuro da Olinda Marcos Roldão, seguimos partilhando ainda da sua angústia. Afinal, onde estaria Roldão?

MR
sexta-feira, 23 de junho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Matadouros e açougues

Nestes tempos em que o mercado de carnes tem sido alvo de discussões em razão das medidas sanitárias cobradas para o setor, fica-se a pensar que agora as exigências são maiores. Certamente, pelo avanço científico, muitas práticas aceitas no passado hoje são condenadas e as adequações são sempre necessárias para garantir a qualidade dos produtos e a seriedade dos que os ofertam aos consumidores. 

As Posturas Municipais adotadas em 20 de fevereiro de 1895, durante a administração do intendente David Soares de Barcellos, em seu capítulo XV, que trata de matadouros e açougues, dizem o seguinte:

Art. 131 - Os matadouros particulares serão situados nos lugares que a Intendencia designar; a carne sera conduzida com a necessaria limpeza para o acougue em que tem de ser talhada, e todo serviço sujeito á immediata inspeção dos agentes, os quaes communicarão a Intendencia qualquer irregularidade prejudicial a salubridade publica, afim de ser o marchante punido com a pena de 30$000 rs de multa senão attender á correcção exigida.
Art. 132 - Ninguem poderá estabelecer acougue sem previa licença da municipalidade. Pena 20$000 de multa. 
Art. 133 - Os acougues e seus utensis serão conservados com a necessaria limpeza que será feita diariamente depois de concluir o talho da carne. Pena de 10$000 de multa.
Art. 134 - E' prohibido conservar em acougues carne, couros, entranhas e cabeças de rez desde que comece a se decompor a exhalar mau cheiro. Pena 10$000 rs de multa.
Art. 135 - E' prohibido cortar ou talhar rez cansada ou doente desde que sua magreza indique o seu estado morboso. O contraventor incorrerá na multa de 30$000 rs, e a perda da carne que ja tiver vendido recebendo esta para ser igualmente inutilisada. 
Art. 136 - Os ossos das rezes que se talharem nos acougues serão serrados com serrote, e não picados a machado e a carne partida com instrumento cortante bem afiado. Pena de 5$000 de multa ao contraventor. 
Art. 137 - Toda carne vendida será pesada a vista do comprador em balanças e pesos aferidos. O contraventor incorrerá na multa de 10$000. Se dér, porém, carne de menos, ou tiver pesos ou balanças destinadas para o furto ao comprador, além de outras penas em que incorra, e da obrigação de indemnisar pagará 30$000 rs de multa.
Art. 138 - Os acougueiros são obrigados a vender pelo preço corrente, a quem quizer comprar carne e pagar a vista. Pena de 10$000 de multa.
Art. 139 - Quem abrir acougue para talhar carne de porco de ovelha ou de cabra fica sujeito a todas as condições contidas neste capitulo.

Livro IM/GI/DA/ADLR-001 - Código de Posturas 1895
- Acervo documental Arquivo Histórico

 Passa o tempo, mudam as regras. O que não muda - ou não deveria mudar - é a preocupação com a saúde pública e com o disciplinamento da oferta de bens e serviços, o que gera segurança para todos, sejam eles comerciantes ou consumidores.


(MR)
sexta-feira, 16 de junho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Corpo de Deus

A comunidade católica realiza a festa religiosa de Corpus Christi (Corpo de Cristo, em latim) para celebrar o mistério da eucaristia e como a hóstia representa o corpo e o sangue de Cristo.

A festa é marcada no calendário 60 dias depois do Domingo de Páscoa, ou na quinta-feira seguinte ao domingo que celebra a Santíssima Trindade, aludindo à Quinta-feira Santa, quando Jesus instituiu o sacramento da eucaristia.

As cidades de tradição portuguesa, como é o caso de Cachoeira, costumam marcar o dia de Corpus Christi confeccionando tapetes em lugares públicos por onde costumam passar os fiéis na procissão religiosa. 

Há 100 anos, a imprensa, através do jornal O Commercio, não falava em tapetes pelas ruas, mas ressaltava a beleza e bom gosto de ornamentação nos quatro altares erguidos pelo trajeto. Notava-se, também, o grande envolvimento das entidades e associações religiosas, bem como das autoridades municipais. 

Notícia publicada n'O Commercio
- Coleção de Imprensa do Arquivo Histórico

Procissão do Corpo de Deus

Foi imponente a procissão do Corpo de Deus, realizada nesta cidade, domingo ultimo, apezar do vento molesto que com impetuosidade fez levantar grande quantidade de pó pelas ruas.
Acabada a missa das 9 1/2 horas, o revmo. padre Luiz Scortegagna fez breve allocução sobre a alta importancia dessa procissão, appellando para os exemplos de fé que deram varões illustres na historia, como São Luiz, Rei de França, Thomaz Moro, chanceller da Inglaterra, etc.
A procissão obedeceu á ordem indicada; iam á frente os Irmãos da Irmandade de N. S. do Rosario, os collegios publicos e particulares, seguindo-se as diversas associações religiosas, Apostolado da Oração, Congregação Mariana, a Irmandade Conjuncta com as respectivas insignias e o Pallio, sob o qual ia o S. S. Sacramento. As varas do Pallio eram empunhadas pelos srs. dr. Quintiliano de Mello e Silva, capitão Francisco Fontoura Nogueira da Gama, coronel Horacio Gonçalves Borges, capitão Sebastião da Silva Barros, dr. Aurelio Castello Branco e capitão Rodolpho Motta, coadjuvados por outros cavalheiros.
Symbolos bem expressivos eram levados por gentis meninas de vestidos brancos, outras representavam anjos. Os 4 altares improvisados em differentes pontos do trajeto, rivalisavam em belleza e bom gosto de ornamentação. Em cada altar foi dada a benção solemne do S. S. Sacramento, assistindo todos os fieis com a maior devoção, de joelhos, como deve ser.
Antes de dar a ultima benção no altar improvisado á porta da igreja matriz, o vigario da parochia, não podendo deixar de externar sua commoção pela viva demonstração de fé, felicitou ás autoridades, aos collegios, ás corporações religiosas e civis e ao povo em geral, implorando de Jesus, presente na Sagrada Hostia, paz e felicidade sobre todos, sobre o municipio de Cachoeira, sobre todo o Estado e sobre todo o nosso paiz.
O côro do Apostolado, com os seus melodiosos canticos apropriados em louvor do S. S. Sacramento, concorreu muito para a imponencia da procissão, a par da Banda Estrella Cachoeirense, que, apresentando-se de uniforme novo, fez ouvir selectas peças de seu vasto repertorio.
A Irmandade Conjuncta foi incançavel na ornamentação das ruas, levantando arcos etc.; por isso o vigario da parochia dirigiu á mesa administrativa da mesma Irmandade um officio de agradecimento e de louvor, para ser lido na primeira sessão e transcripto no livro competente. 

(Jornal O Commercio, Cachoeira, edição de 13 de junho de 1917, p. 2, Coleção de Imprensa do Arquivo Histórico).

Autoridades municipais presentes à procissão de Corpus Christi
- Fototeca Museu Municipal

Nos dias de hoje, ainda que a grandiosidade da festa de Corpus Christi não se reproduza, ganha força a cada ano a tradição dos tapetes, superando-se os artífices em expressar com delicadeza, arte e beleza a sua fé.

(MR)
segunda-feira, 5 de junho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Do tempo dos lampiões

Há muito tempo atrás, quando a luz elétrica ainda não havia chegado por aqui, os recursos para iluminação das casas e ruas eram as lamparinas e lampiões. Nas ruas principais da cidade, havia maior profusão de lampiões, rareando os focos de luz conforme os caminhos conduziam para os arrabaldes.

Registros fotográficos dos últimos lampiões - fototeca Museu Municipal

Em 1911, um recibo do tesoureiro da Intendência da Cachoeira atesta que havia sido gasta a quantia de quinze mil e quinhentos réis com o trabalho de acendimento dos nove lampiões da avenida na Praça José Bonifácio, no período dos 31 dias do mês de julho, ao custo de 500 réis por noite. O acendedor, que se chamava João José Rodrigues, era também o jardineiro da Intendência. Provavelmente, para engrossar os rendimentos de jardineiro, João José se desdobrava trabalhando também à noite no acendimento dos lampiões...

Recibo de pagamento do acendedor de lampiões
- IM/RP/SF/D-102
Aliás, os lampiões desapareceram no tempo, substituídos pela energia elétrica, mas algumas das árvores plantadas nas praças de Cachoeira, especialmente na Praça José Bonifácio, pelo jardineiro João José, ainda se mantêm, testemunhando trabalho praticamente anônimo.

Praça José Bonifácio provavelmente ajardinada por João José Rodrigues
- fototeca Museu Municipal

Em agosto de 1911, outra despesa relativa ao serviço de iluminação tem o comprovante preservado na documentação histórica, desta vez no montante de 270 mil réis e relativa ao custeio de cem lampeões da illuminação publica desta cidade, quantia paga a João Henrique de Carvalho. Em 31 de outubro, a despesa de 302.400 réis já dava um total de 112 lampiões.

Como se vê, os gastos com a manutenção dos lampiões se ampliava conforme o crescimento de seu número, pois a cidade em expansão necessitava também promover o alcance da iluminação pelos novos rumos que se abriam.

O trabalho de acendimento - e de extinção das chamas dos lampiões - exigia a contratação constante de mão de obra, pois uma única pessoa não tinha condições de dar conta sozinha da exaustiva e, aos olhares de hoje, tão obsoleta tarefa.

EM TEMPO: Nosso atento leitor, colaborador e pesquisador dos acervos de documentos e imprensa do Arquivo Histórico, Hilberto Prochnow, fez importante observação sobre a postagem Do tempo dos lampiões, que registramos aqui. Intervenções como esta são importantíssimas para acrescentar e retificar informações, indo ao encontro do compromisso do Arquivo Histórico em difundir a história de Cachoeira com isenção, comprometimento e fidedignidade.

Hilberto Prochnow chama a atenção que o recibo assinado pelo jardineiro João José Rodrigues na verdade foi feito a rogo de Luiz Affonso, este sim o acendedor de lampiões. Provavelmente analfabeto, Luiz Affonso, na companhia do amigo jardineiro, dirigia-se ao tesoureiro da Intendência para o recebimento da soma que lhe era devida, para o que João José dava o recibo.

Para enriquecer ainda mais as observações feitas, o colaborador Hilberto Prochnow informa que João José Rodrigues, o jardineiro da Intendência, era português, nascido em 15 de janeiro de 1850 e falecido aos 88 anos, em 30 de março de 1938.

Muito obrigada, Hilberto! A postagem segue na íntegra para que os leitores possam perceber as observações feitas.

(MR)
sexta-feira, 26 de maio de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Imagem de Nossa Senhora no frontispício da Igreja Matriz

As obras de pintura da Catedral Nossa Senhora da Conceição, no Centro Histórico, ocupam a atenção da comunidade. Com a restauração do Paço e do Château d'Eau, os olhares agora se voltam para os detalhes que a rica arquitetura do templo revela sob a camada nova de tinta e, especialmente, sobre a imagem da Nossa Senhora que domina o frontispício.

Catedral em processo de pintura - foto Ione M. S. Carlos

As remodelações do templo foram muitas ao longo de sua história, mas a mais radical foi a iniciada em março de 1929, quando houve a decisão de mudar o aspecto externo, enriquecendo a simples arquitetura colonial militar de sua fachada com detalhes barrocos e substituindo a cruz que encimava o frontispício por uma imagem de Nossa Senhora.

Fachada original da Igreja Matriz - fototeca Museu Municipal
Na edição do jornal O Commercio, de 1.º de janeiro de 1929, detalhes da solene bênção da imagem da padroeira e inauguração das torres:

Como dissemos em nossa edição anterior, effectuou-se, na manhã de domingo ultimo, a solemnidade da benção do monumento votado a Nossa Senhora da Conceição, que encima o frontispicio remodelado da Igreja Matriz.
A missa das 9 horas, que precedeu a solemnidade, congregou grande massa de fiéis no templo catholico, ficando muitas pessoas postadas á frente, por não conseguirem logar no interior.
Proximo á porta de sahida, do lado esquerdo da igreja, um grupo de gentis senhoritas vocalisou canticos liturgicos, com acompanhamento, ao orgão, pela senhorita Alda Eggers.
A missa terminou ás 10 horas, começando, após, a reunião de povo emfrente ao templo, e ficando tomado o espaço desde a escada de acesso ao Chateau d'eau.
Nessa occasião, o revmo. monsenhor Luiz Scortegagna, Governador Geral do Bispado de Santa Maria, benzeu o monumento e inaugurou as duas torres novas da igreja, emquanto, no interior da mesma, a senhorita Carmen Barbosa vocalisava uma bella Ave Maria.
Serviram de paranymphos do acto, segurando em longas tiras de fita azul, as exmas. sras. dd. Carlinda Brandes, Brizabella Machado, Elizabeth Carvalho, Dora Mello de Barros, Azhyr Fontoura de Barcellos, Euphrasia Figueiredo, senhoritas Herminia Vieira da Cunha, Alice Abreu, Catharina de Franceschi e Olga Motta, as 5 ultimas, pelo Apostolado da Oração e pela Congregação Mariana; e os srs. Antonio Cauduro, José Carlos Barbosa, dr. David F. de Barcellos, Luiz Carvalho, João Franceschi (representando seu pai, sr. Maximiliano de Franceschi), Augusto Rossi, Nicolau Salzano e Virgilio Carvalho Bernardes.
Terminada a benção, que constituiu uma cerimonia emocionante, monsenhor Luiz Scortegagna subiu a um automovel que estava postado na praça, proferindo a seguinte oração:
Cerimonia simples e commovente, commovente e significativa esta que acaba de realizar-se.
Cachoeira, a catholica Cachoeira, está aqui dignamente representada por todos Vós  que constituis a concentração das energias do progresso social e religioso.
Cachoeira bella e forte, tu não poderias te gloriar com o nobre titulo de Princesa do Jacuhy, se a tua praça mais pittoresca não fosse aformoseada com um templo digno de tua crença, digno de tua excelsa protectora, da Immaculada Conceição, de accordo com o hodierno evoluir artistico.
Meus senhores! E' nesta hora que a digna commissão, depositaria do arduo encargo de transformar o antigo templo em alegre Domus Dei - casa do Senhor, Vos convidou para solemnisar a primeira etapa de sua actividade, a saber, a inauguração das alterosas torres com suas cruzes, as quaes, perfurando o espaço, symbolisam a nossa Fé e o nosso trabalho.

E o monsenhor prosseguiu em exaltações às ofertas para a realização da obra, terminando por referir-se ao arquiteto e a quem o templo é dedicado:

Honra ao celebrisado architecto sacro sr. Vitorino Zani, pela feliz produção artistica, honra á sua firma commercial pelo primoroso material fornecido; honra, outrosim, ao habil executor dos trabalhos, sr. Fortunato. E neste momento, com os olhos levantados para o céo, demos graças ao Altissimo pela insigne felicidade de, nesses trabalhos tão perigosos e arriscados, não ter havido nenhum incidente ou desastre grave a lamentar.
Animados pela fé trabalhemos pela remodelação da Igreja Matriz. - Igreja Matriz! isto é, Igreja mãe! sim, é este templo comum a todos nós.
É o lugar sagrado onde Deus habita na Sagrada Hostia; é o santuario onde temos colloquios com o Creador pela oração; é o lugar onde a maioria de Vós foi pacificada da mancha do pecado original, onde recebestes a santificação do vosso amor conjugal; onde tantas vezes recebestes o perdão dos vossos peccados e onde tantas vezes encontrastes consolo nas vossas tristezas;
Onde são encommendados os corpos inanimados;
Onde suffragamos as almas de nossos paes, parentes e amigos e onde um dia será suffragada a nossa alma.
E a quem é dedicado este templo?
A' creatura incomparavel, á mais pura e santa, á Medianeira de todas as graças, á Immaculada Virgem Maria, Padroeira do Brasil.


Nossa Senhora - foto Renato F. Thomsen
- pontedepedra.blogspot.com.br

Sua imagem, que acaba de ser inaugurada, repousa dia e noite no frontispicio do templo. Para vigiar e proteger a Vós todos, ahi a vêdes. Está ahi para fazer constatar aos peregrinos, aos viajantes das varzeas e das cochilhas vizinhas e aos que transitam pela linha ferrea, a vossa fé a vossa cultura.
Facto este que demonstra claramente que á S. S. Virgem Immaculada são consagrados os Cachoeirenses e que da sua protecção aguardam elles paz na vida, tranquilidade na lucta e completa felicidade no céo. Disse.
(...)
O orador foi muito applaudido e felicitado pelos conceitos que externou.
Tambem foi muito felicitada a commissão das obras de remodelação, constituida dos srs. Virgilo Carvalho de Abreu, Manoel Fialho de Vargas e Achylles Lima Figueiredo.
Em seguida começou a dispersão do povo, entronado ainda muitas pessoas na Igreja Matriz e na sachristia, onde se conservaram reunidas por algum tempo, em expansões de alegria.

Em maio de 2017, com a nova roupagem que a imagem de Nossa Senhora recebeu, ressaltando o azul de seu manto e os detalhes que identificam a sua representação, talvez a dúvida que assalte a todos de ser ela a Imaculada Conceição ou a Nossa Senhora das Graças esteja resolvida pelas palavras do monsenhor Scortegagna: 

A' creatura incomparavel, á mais pura e santa, á Medianeira de todas as graças, á Immaculada Virgem Maria, Padroeira do Brasil.

Com esta frase ele define Nossa Senhora como a mais pura e santa, a imaculada, independente das diversas nomenclaturas que recebe...

(MR)